Terça-feira, 1 de Setembro de 2009

Gripe A: a Toma da Pastilha

1. A propósito da troca de medicamentos no Hospital de Santa Maria em Lisboa, perguntaram-me se continuava a confiar nos hospitais públicos. A minha resposta foi, obviamente, afirmativa. Afinal não é para lá que corremos assim que sentimos uma emergência, um imprevisto num tratamento feito numa clínica privada, um inesperado sintoma na rotina da saúde? À força de tanto se ter enterrado o país numa perspectiva de lucro a toda a brida, todos os sistemas públicos foram, de uma forma ou de outra, desinvestidos. Da educação à justiça, da saúde à segurança social, lá foram os nossos sucessivos governos desacreditando paulatinamente aquilo que deveriam ter defendido e incentivado, criando de forma sistemática uma falsa ideia de que ‘no privado é que se está bem’. Ora, se a justiça ainda é a área que não foi totalmente privatizada, veremos que estratagema se arranjará no futuro para que cada português com dinheiro possa ter o seu próprio juiz e cada empresa poderosa o seu próprio tribunal, quem sabe até a funcionar num shopping próximo de si. O mesmo se passa com o Serviço Nacional de Saúde: concebido originalmente para ser gratuito em absoluto e para suprir as dificuldades económicas dos mais desfavorecidos, hoje é apenas uma sombra de tais intenções mercê da desorçamentação contínua para o sector. Contudo, é ainda ao serviço público que a maioria dos portugueses continua a recorrer inequivocamente quando confrontada com o desespero. Para além das razões humanas e sociológicas que possam explicar esta opção, há uma que salta à vista: o Estado é considerado como pessoa de bem, ainda que se possa portar inversamente. É que nos hospitais públicos os utentes não são ainda um cheque no final da consulta, nem os médicos, enfermeiros e pessoal administrativo assalariados com targets empresariais definidos no início de cada ano fiscal.

 

2. Recentemente em Nova Iorque necessitei, por razões menores, de consultar um médico. Os Estados Unidos são um país com inúmeras coisas boas, do Jazz à rapidez da justiça, mas seguramente que o sistema de saúde é, talvez, um dos piores do Mundo, ombreando com o dos países sub-desenvolvidos. O que me aconteceu a mim, acontece diariamente a milhões de cidadãos norte-americanos: após ter tentado, em vão, dois hospitais privados e tendo-me sido recusado atendimento por não possuir seguro médico adequado, lancei-me num frenesim de tentativas telefónicas para consultórios médicos que amigos e conhecidos me iam apontando. Depois de me apresentar com a maior das rapidezes à funcionária que me atendia e tentar expor o meu caso, era-me feita uma única pergunta: “tem seguro de saúde?”. Ao tentar responder que não, e na tentativa de procurar alternativa, o telefone era consecutivamente desligado. Até que, entre a febre galopante e já dominando as nuances do sistema, ao quarto telefonema, e perante a mesma pergunta respondi avidamente: “Não tenho seguro americano, mas tenho dinheiro. Dólares. Euros. Ok?”. Para quê tanto trabalho se podia ter logo no primeiro hospital pronunciado as palavras mágicas. Um cifrão é, nos Estados Unidos, a cura de todos os males.

É este o sistema que nos tentam, a pouco e pouco, impor em Portugal. E, de resto, já em óbvia falência nos EUA. Obama está a tentar fazer passar no Congresso nova legislação que permita acesso gratuito e generalizado a todos os norte-americanos à rede de saúde pública. Os velhos do Restelo com pronúncia texana não se fizeram esperar. Multiplicam-se manifestações, debates e acendem-se ódios antigos. Aparentemente, a opinião pública acha mais conveniente canalizar os impostos para o sistema de defesa, neste caso de ataque pífaro ao Iraque, do que num regime de saúde vigoroso que abarque todos.

 

3. A quem recorreremos nós, portugueses, quando o surto de Gripe A atacar em força, como se prevê em Outubro e Novembro?

Como será de esperar, caberá aos hospitais públicos, aos centros de saúde e de triagem esta tarefa hercúlea. Uma vez mais, com o credo na boca, é ao Estado que os portugueses confiam o seu bem-estar. Saibam os políticos tirar as ilações e pugnar por um sistema de saúde eficaz, gratuito e generalizado. Por menos se tomou a Bastilha. E esta é uma pastilha que nem os grandes operadores privados de saúde vão querer enfrentar.

 

 

Pedro Abrunhosa

 

Porto, 1 de Setembro de 2009

 

 

publicado por Um_Tuga_no_Mundo às 16:54
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